Camaçarí / BA - 17 de Março de 2026
Publicado em 16/03/2026 08h48

Saiba o que O Agente Secreto tem a comemorar após decepção no Oscar

O Agente Secreto perdeu nas quatro categorias em que concorria no Oscar 2026. Adolpho Veloso também não levou prêmio de Melhor Fotografia
Por: Metrópole

Wagner Moura e Tânia Maria em O Agente Secreto

 

Mesmo com a torcida e a esperança brasileira, o Brasil não levou nenhuma das cinco categorias que disputava no Oscar 2026. O filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, perdeu em Melhor Elenco para Uma Batalha Após a Outra; em Melhor Filme Internacional para Valor Sentimental; e em Melhor Ator e Melhor Filme para Pecadores. O diretor de fotografia Adolpho Veloso também não levou a estatueta pelo filme estadunidense Sonhos de Trem.

Especialistas afirmam que, apesar das derrotas no Oscar, o filme brasileiro tem muito o que comemorar. A avaliação é de que a trajetória do longa nacional até a maior premiação do cinema mundial alavanca ainda mais a importância da arte feita no Brasil, enquanto as perdas não invalidam a relevância do potencial dos profissionais brasileiros.

“O Agente Secreto já produziu um efeito estrutural. O simples fato de ter circulado com força no circuito internacional, acumulando indicações e vitórias relevantes, especialmente em festivais como o Festival de Cannes, reposiciona o cinema brasileiro como potência criativa contemporânea, não apenas como memória de um passado glorioso”, afirma Gabriel Amora, jornalista e crítico de cinema.

“Não existe um panorama em que O Agente Secreto saia moralmente derrotado. A campanha foi muito bem-sucedida”, completa Cyntia Calhado, pesquisadora e professora universitária do curso de Cinema e Audiovisual da ESPM.

 

É importante lembrar que, para além das indicações de Ainda Estou Aqui – vencedor da categoria Melhor Filme Internacional no Oscar 2025 – e O Agente Secreto, o Brasil já foi indicado ao Oscar outras 13 vezes nas mais diversas categorias, considerando filmes nacionais e coproduções com outros países.

Brasil no Oscar

 

  • Orfeu Negro (1960)
  • O Pagador de Promessas (1963)
  • Raoni (1979)
  • O Beijo da Mulher-Aranha (1986)
  • O Quatrilho (1996)
  • O Que É Isso, Companheiro? (1998)
  • Central do Brasil (1999)
  • Uma História de Futebol (2001)
  • Cidade de Deus (2004)
  • Lixo Extraordinário (2011)
  • O Sal da Terra (2015)
  • O Menino e o Mundo (2016)
  • Democracia em Vertigem (2020)
  • Impactos na indústria

    A cineasta Cíntia Domit Bittar garante que o destaque em premiações internacionais também causa impacto direto na indústria, “como o fortalecimento da receptividade ao cinema brasileiro independente dentro do próprio país, ampliando o interesse do público e a busca por filmes nacionais”.

    O título brasileiro ganhou destaque nas premiações Critics Choice Awards e Globo de Ouro. No ano passado, o longa Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, conquistou o mesmo feito, levando a categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2025.

  • “No momento, O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui se configuram como exceções. O cinema brasileiro sempre produziu obras extraordinárias, mas o reconhecimento internacional em escala industrial depende de continuidade, de políticas públicas estáveis e de estratégias consistentes de circulação. Sem isso, cada conquista pode ser tratada como um evento isolado, e não como parte de uma presença permanente”, pondera Cíntia.
  • E daqui para frente?

    Estamos vendo uma fase de ouro da cinematografia brasileira no sentido de prestígio internacional. Esse impacto será muito duradouro.

    Pierre Grangeiro, historiador e membro-fundador do Cineclube 24 Quadros

    Para os especialistas, a permanência de filmes brasileiros em destaque mundial depende da reorganização para transformar prestígio em política de continuidade.

  • “Quando um longa como Ainda Estou Aqui alcança repercussão internacional e, no ano seguinte, O Agente Secreto mantém o Brasil em evidência, cria-se uma narrativa de consistência. O mundo deixa de olhar para o cinema brasileiro como ‘surpresa exótica’ e passa a enxergá-lo como produção recorrente de alto nível“, explica Gabriel, que completa:

    “Mas isso exige ecossistema, como a existência de editais estáveis, distribuição estratégica, formação de público e integração com o mercado internacional. Se houver política cultural consistente, esses filmes deixam de ser exceções e passam a ser parte de uma nova fase. Se não houver, correm o risco de virar apenas picos isolados numa curva irregular.”

    Cíntia finaliza garantindo que, apesar do prestígio de uma estatueta do Oscar, a premiação não é responsável por consolidar um filme como marco histórico. “A trajetória de O Agente Secreto o consolida como um grande marco, desde o estrondo no Festival de Cannes 2025, quando já saiu recordista”, garante.

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